No caminho inverso, bailarinos de dança contemporânea, moderna, clássica e jazz, se interessam por aprender e praticar as danças de salão. Com isso, em muitos casos, intencionalmente ou não, o dançarino de salão sofre influências e contaminações por estas outras linguagens artísticas.
Antes eram somente números curtos que eram apresentados nos bailes, festas ou festivais das escolas. A partir do final da década de 1990, estes começam a se estender, com a pretensão de se tornarem um espetáculo com uma proposta artística, passando a ser apresentados em teatros, por grupos e companhias independentes das escolas que lhes deram origem. A maioria não conseguiu se desvencilhar da forte ligação das danças de salão com o mero entretenimento, com uma certa cafonice impregnada e a cara de “show para turista”. Alguns nem mesmo conseguiram fazer as devidas modificações espaciais necessárias ao se passar de um salão a um palco italiano. Outros acabaram danosamente influenciados por outras técnicas, perdendo a essência de suas origens. Porém, algumas fortes referências surgiram, com coreógrafos que conseguiram preservar a base da linguagem coreográfica dos salões de forma inovadora[1] e contemporânea. Desconstruindo e relendo as tradições dos salões. Criando o que os críticos passaram a chamar “dança de salão contemporânea”[2], dando um tratamento profissional às produções[3] e levando esta nova linguagem a receber premiações e a ser apresentada em palcos, festivais e públicos antes somente acostumados às danças anteriormente citadas como cênicas por natureza.
Muitos erros são cometidos nesta transposição do salão ao palco, nesta transformação do que era entretenimento e lazer popular para um espetáculo de dança de cunho artístico. Mas ao mesmo tempo, obras originais e de qualidade inquestionável são convidadas a serem apresentadas nos mais importantes festivais de dança contemporânea ao redor do mundo, com grande sucesso de público e crítica, tirando o estigma de amadorismo e cafonice que o estilo carregava. Podemos citar como exemplo festivais e teatros internacionais como: Jacob’s Pillow Dance Festival, EUA; Madrid en Danza, Espanha; Festival des Arts de Saint-Sauveur, Canadá; Maison de la Danse, França. Ocorrem perdas na cultura popular dos salões, simultaneamente a um crescimento artístico de suas manifestações cênicas.
Estamos caminhando para o empobrecimento das danças de salão como cultura popular com conseqüente enriquecimento artístico desse estilo, já visto por alguns como dança contemporânea? O ensino dos diferentes gêneros para se dançar nos bailes, caminha para a área da educação – até mesmo acadêmica – e da elite, se distanciando da área do lazer e diversão popular? Qual é esse novo produto que está sendo formado? É terapêutico, é artístico, é educacional? Provavelmente só teremos essas respostas daqui a algumas gerações. Estamos sendo “assassinos” da cultura popular das danças de salão ou seus transformadores em uma nova e rica vertente da dança contemporânea?
“[...] quem vê o espetáculo não assiste a uma série de números de dança de salão bons, mas eventualmente conhecidos. Assiste a uma obra que transcende as técnicas em que se baseia, transforma a dança de salão em matéria prima para a construção de algo mais complexo e desconhecido.” (AVELLAR, 2001)
[1] “Se nada parece novo no mundo atual, não é porque tudo é clichê ou lugar-comum na contemporaneidade, mas porque a maioria dos artistas usa os signos disponíveis de maneira previsível. Como a Mimulus não pretende se render a isso, os rumos de cada cena de Dolores são agradavelmente imprevisíveis.” (AVELLAR, 2008) (crítica a um dos espetáculos da Mimulus Cia. de Dança, de Belo Horizonte, que faz criaçoes tendo como base as danças de salão)
[2] “La compañía brasileña de Belo Horizonte, Mimulus, bajo la batuta coreográfica de Jomar Mesquita, desarrolla una serie de danzas a partir de los bailes de salón, transformándolos en un nuevo concepto de danza contemporánea.” (SIMON, 2007)
“Mimulus, a companhia que vem melhor realizando em Minas – talvez no Brasil – uma criação contemporânea a partir de elementos da dança de salão.” “O erro do raciocínio dos incautos é pensar que a Mimulus não produz dança contemporânea. A relação de E Esse Alguém Sabe Quem com a dança de salão que lhe serve de base transcende o gênero e seu simulacro.”
(AVELLAR, 2003)
[3] “Dolores é um espetáculo que transcende a própria dança e, neste sentido, supera os trabalhos anteriores da companhia. Sua complexidade, desde a estrutura até o jogo de movimento no cenário e entre este e a luz, resulta em algo particularmente espetacular.” (AVELLAR, 2008) (“Dolores” é um dos espetáculos da Mimulus Cia. de Dança)


