Mimulus Cia de Dança

Transposição da linguagem coreográfica dos salões para os palcos – Última Parte outubro 1, 2009

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No caminho inverso, bailarinos de dança contemporânea, moderna, clássica e jazz, se interessam por aprender e praticar as danças de salão. Com isso, em muitos casos, intencionalmente ou não, o dançarino de salão sofre influências e contaminações por estas outras linguagens artísticas.

Antes eram somente números curtos que eram apresentados nos bailes, festas ou festivais das escolas. A partir do final da década de 1990, estes começam a se estender, com a pretensão de se tornarem um espetáculo com uma proposta artística, passando a ser apresentados em teatros, por grupos e companhias independentes das escolas que lhes deram origem. A maioria não conseguiu se desvencilhar da forte ligação das danças de salão com o mero entretenimento, com uma certa cafonice impregnada e a cara de “show para turista”. Alguns nem mesmo conseguiram fazer as devidas modificações espaciais necessárias ao se passar de um salão a um palco italiano. Outros acabaram danosamente influenciados por outras técnicas, perdendo a essência de suas origens. Porém, algumas fortes referências surgiram, com coreógrafos que conseguiram preservar a base da linguagem coreográfica dos salões de forma inovadora[1] e contemporânea. Desconstruindo e relendo as tradições dos salões. Criando o que os críticos passaram a chamar “dança de salão contemporânea”[2], dando um tratamento profissional às produções[3] e levando esta nova linguagem a receber premiações e a ser apresentada em palcos, festivais e públicos antes somente acostumados às danças anteriormente citadas como cênicas por natureza.

Muitos erros são cometidos nesta transposição do salão ao palco, nesta transformação do que era entretenimento e lazer popular para um espetáculo de dança de cunho artístico. Mas ao mesmo tempo, obras originais e de qualidade inquestionável são convidadas a serem apresentadas nos mais importantes festivais de dança contemporânea ao redor do mundo, com grande sucesso de público e crítica, tirando o estigma de amadorismo e cafonice que o estilo carregava. Podemos citar como exemplo festivais e teatros internacionais como: Jacob’s Pillow Dance Festival, EUA; Madrid en Danza, Espanha; Festival des Arts de Saint-Sauveur, Canadá; Maison de la Danse, França. Ocorrem perdas na cultura popular dos salões, simultaneamente a um crescimento artístico de suas manifestações cênicas.

Estamos caminhando para o empobrecimento das danças de salão como cultura popular com conseqüente enriquecimento artístico desse estilo, já visto por alguns como dança contemporânea? O ensino dos diferentes gêneros para se dançar nos bailes, caminha para a área da educação – até mesmo acadêmica – e da elite, se distanciando da área do lazer e diversão popular? Qual é esse novo produto que está sendo formado? É terapêutico, é artístico, é educacional? Provavelmente só teremos essas respostas daqui a algumas gerações. Estamos sendo “assassinos” da cultura popular das danças de salão ou seus transformadores em uma nova e rica vertente da dança contemporânea?

 

“[...] quem vê o espetáculo não assiste a uma série de números de dança de salão bons, mas eventualmente conhecidos. Assiste a uma obra que transcende as técnicas em que se baseia, transforma a dança de salão em matéria prima para a construção de algo mais complexo e desconhecido.” (AVELLAR, 2001)


[1] “Se nada parece novo no mundo atual, não é porque tudo é clichê ou lugar-comum na contemporaneidade, mas porque a maioria dos artistas usa os signos disponíveis de maneira previsível. Como a Mimulus não pretende se render a isso, os rumos de cada cena de Dolores são agradavelmente imprevisíveis.” (AVELLAR, 2008) (crítica a um dos espetáculos da Mimulus Cia. de Dança, de Belo Horizonte, que faz criaçoes tendo como base as danças de salão)

[2] “La compañía brasileña de Belo Horizonte, Mimulus, bajo la batuta coreográfica de Jomar Mesquita, desarrolla una serie de danzas a partir de los bailes de salón, transformándolos en un nuevo concepto de danza contemporánea.” (SIMON, 2007)

“Mimulus, a companhia que vem melhor realizando em Minas – talvez no Brasil – uma criação contemporânea a partir de elementos da dança de salão.” “O erro do raciocínio dos incautos é pensar que a Mimulus não produz dança contemporânea. A relação de E Esse Alguém Sabe Quem com a dança de salão que lhe serve de base transcende o gênero e seu simulacro.”

 (AVELLAR, 2003)

[3] “Dolores é um espetáculo que transcende a própria dança e, neste sentido, supera os trabalhos anteriores da companhia. Sua complexidade, desde a estrutura até o jogo de movimento no cenário e entre este e a luz, resulta em algo particularmente espetacular.” (AVELLAR, 2008) (“Dolores” é um dos espetáculos da Mimulus Cia. de Dança)

 

Transposição da linguagem coreográfica dos salões para os palcos – 2ª Parte setembro 18, 2009

Filed under: 1 — Mimulus @ 6:10 pm
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No Brasil, as danças de salão passaram por um processo de profissionalização com inúmeras transformações nas últimas décadas. A partir do momento em que os bailes populares e gafieiras passaram a ser freqüentados pelas classes média e alta, a maneira como os originais dançarinos ensinavam e exibiam sua arte nos salões, começou a sofrer várias modificações. Inicia-se o surgimento de escolas com um ensino sistematizado. Até então, a maneira como as danças eram transmitidas e ensinadas, se dava no âmbito familiar, de geração para geração; no próprio baile, com a prática e a observação; ou nas gafieiras, em aulas particulares, normalmente ministradas de forma bastante amadora, por aqueles dançarinos que se sobressaíam nos bailes. Raramente se via alguma escola especializada no ensino das danças de salão. Com o surgimento destes estabelecimentos, inicia-se a busca por uma formação adequada ao professor e a codificação de uma técnica. Chegando ao ponto de hoje já termos cursos de graduação e pós-graduação em danças de salão. Ao mesmo tempo, ocorre o desaparecimento das gafieiras e bailes tradicionais, sendo estes transferidos para as escolas. Obviamente que estas transformações vão acabar afetando a maneira de se dançar e os próprios rituais dos bailes. A verdade não é mais o que diz o senso comum de que a pessoa tomaria aulas de dança para praticar nos bailes. O território da prática passa a ser, na maioria das vezes, apenas a própria sala de aula. Da mesma maneira, torna-se difícil de se encontrar num baile, aquele típico dançarino que ali aprendeu sua técnica, sem nunca ter freqüentado uma escola[1].

Estes “novos” dançarinos de salão que começam a surgir a partir do final da década de 1980, modificam também a maneira como aconteciam os “shows” de dança que eram inseridos num determinado momento do baile. Se antes eram realizados como mera exibição improvisada de casais, passam a ser coreografados em duos ou grupos formados por professores e alunos avançados das escolas. Vale lembrar também que isso se dá num período em que os jovens voltam a se interessar pelas danças de salão – consideradas démodé nas décadas de 60, 70 e 80 – e que diversos outros fatores contribuem para sua retomada após algumas décadas de hibernação onde reinava o rock’n roll, o dançar separado, o feminismo (com idéias opostas a muitos dos rituais dos bailes e preceitos básicos da relação entre um homem e uma mulher quando dançam abraçados). A busca por inovações no momento de criar as coreografias foi natural. Bem como a busca por aprender outras modalidades de dança e mesmo o trabalho de ator que, por terem como finalidade o espaço cênico, poderiam supostamente contribuir nesta transformação da linguagem coreográfica dos salões para a performance – além de uma preparação corporal mais adequada.


[1] Considerando que estamos tratando dos praticantes do que deve ser considerado como danças de salão. Diferentemente das danças sociais: estilo menos técnico, como o praticado em bailes de terceira idade e cerimônias como bailes de formatura e cerimônias afins.

 

Transposição da linguagem coreográfica dos salões para os palcos – 1ª Parte setembro 9, 2009

Filed under: o pensar — Mimulus @ 5:27 pm
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Por abrangerem diversos objetivos na sua prática – lazer, entretenimento, esporte, terapia, arte, exercício físico, socialização – as danças de salão acabam sofrendo por sua indeterminação como objeto de pesquisa. Apesar de largamente praticadas, elas ficam relegadas ao não-lugar “[...] dessa cultura quase sempre marginalizada pela historiografia tradicional [...]” (TINHORÃO, 1976). Às vezes é considerada pelo campo das ciências sociais, mas raramente pelo campo da pesquisa artística que aborda somente as danças consideradas cênicas.

Ao longo da história, as danças de salão seguiram um caminho divergente ao das danças cênicas, apesar de não haver distinção entre ambas, no período de seu surgimento, na corte francesa. Uma época em que o espaço para o baile coincidia com o espaço cênico onde a corte assistia as apresentações do que era, ao mesmo tempo, o embrião da dança clássica e das danças sociais e de salão. Com o passar dos anos, o balé se volta para os palcos, como fazer artístico, enquanto as danças dos salões de baile ficam restritas àqueles espaços de manifestação da cultura popular, como lazer e entretenimento. Podemos entender o baile e seus rituais também como um complexo e interessante espaço cênico, se pensarmos que seus freqüentadores são participantes ativos, se revezando, ora na posição de performers (sob o ponto de vista de que estão dançando e naturalmente se exibindo tanto para o seu parceiro como para os que estão ao redor); ora como espectadores (quando estão assentados nas mesas observando). E podemos observar nos bailarinos das danças cênicas (balé clássico, dança contemporânea e outras), uma busca de atuação que se aproxime da naturalidade e do clima do baile[1]. No entanto, entendendo-se o teatro como espaço cênico por excelência, os gêneros de danças praticados nos bailes, se mantiveram dali afastados por séculos, a não ser por apresentações curtas e esporádicas com objetivo de diversão, sem pretensões artísticas. Somente nas últimas décadas do século XX, podemos observar o surgimento de espetáculos que têm como base as técnicas das diferentes danças de salão transpostas para os palcos dos teatros como criações artísticas.

 


[1] “Marie Taglioni (1827): ‘danse sur un théâtre comme elle danserait au bal’.

Jacq-Mioche (1998): ‘si elle danse sur scène comme au bal, c’est que la frontière entre le spectacle et la vie s’efface, dans un mouvement lui aussi propre au romantisme oú rêve et réalité fusionnent’. (APPRILL, 2005)

 

Pensar a dança setembro 9, 2009

Filed under: o pensar — Mimulus @ 5:20 pm
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Iniciamos hoje a série de três postagens que abordarão a Transposição da linguagem coreográfica dos salões para os palcos;  de Jomar Mesquita, diretor e coreógrafo da Mimulus Cia. de Dança. O artigo é texto final do IV Colóquio Internacional de Etnocenologia da UFMG, realizado em agosto último.

Abraços e até o próximo!

Núcleo de Comunicação

 

 

 
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